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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011





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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Cataratas do Iguaçú, vista aérea


Imagem das Cataratas do Iguaçú no lado da Argentina


Placa em Homenagem à Cabeza de Vaca nas Cataratas do Iguaçú

Cabeza de Vaca e as Cataratas do Iguaçu




O espanhol Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, foi o primeiro europeu a chegar às Cataratas do Iguaçu, em janeiro de 1542. Nomeado Adelantado (governador) espanhol no Rio da Prata, Cabeza de Vaca, aportou na Ilha de Santa Catarina em 1541 (então território espanhol). Daí percorreu o interior do que seria depois o Estado do Paraná, pelo caminho indígena do Peaberu, até alcançar a cidade de Assuncion, onde assumiria o cargo de governador. Ao descer o Rio Iguaçu, no caminho para Assuncion, chega ao local das cataratas que os índios chamavam de Iuazú (Àgua Grande). Não há comprovação histórica, mas, ao avistar os saltos, Alvar teria dito: "Santa Maria, que beleza!". E, teria batizado as cataratas de Salto Santa Maria. Este é o relato feito pela expedição de Cabeza de Vaca:




"...Tendo deixado os índios do rio Piquiri muito contentes,o governador seguiu o seu caminho (...) por onde passavam, os índios cantavam e dançavam e sentiam maior prazer quando as velhas se alegravam, pois são muito obedientes a estas, o mesmo não se dando com relação aos velhos. (...) o governador comprou algumas canoas dos índios e embarcou com oitenta homens rio Iguaçu abaixo (...) mas (...) era tão forte a correnteza que as canoas corriam com muita fúria. Logo adiante do ponto onde haviam embarcado o rio dá uns saltos por uns penhascos enormes e a água golpeia a terra com tanta força que de muito longe se ouve o ruído. (...)"



A região sul da América do Sul, foi muito disputada por portugueses e espanhóis durante o período colonial. Território espanhol segundo o Tratado de Tordesilhas (1494), a região é porta de entrada para o interior do continente através dos inúmeros rios, particularmente o Rio Paraná e o Rio Paraguai, por onde se poderia chegar à região das minas de prata e ouro do Perú e da Bolívia. Através do Tratado de Madri, em 1750, os limites territoriais das colônias ibéricas são redefinidos. Os atuais estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul ficam sob a posse de Portugal, decisão essa referendada no Tratado de Badajós em 1801. Mas, os limites definitivos somente foram fixados no século XIX, quando Argentina, Paraguai e Brasil já estavam independentes dos colonizadores. Por se tratar de uma região de difícil acesso, as cataratas ficaram longe dos olhares do "branco civilizado" por um considerável período.

A fundação de Foz do Iguaçú no final do século XIX, transformado em município em 1914, possibilita a "redescoberta" das cataratas, aos poucos. Em abril de 1916, o inventor e aeronauta Santos Dumont após conhecer os saltos, é o primeiro a sugerir a criação de um parque nacional para a proteção da área. No mesmo ano, em 28 de julho o presidente (governador) do Estado do Paraná, Affonso Alves de Camargo, transformou em terras públicas a região que abriga as cataratas. Em 1934, foi criado o Parque Nacional do Iguassu, no lado da Argentina, e em 1936 o Parque Nacional do Iguaçú no lado brasileiro.



Segundo o Wikipédia, o aparecimento das cataratas para os índígenas tupi-guaranis, é explicado através da seguinte lenda:
"Há muitos anos atrás, o Rio Iguaçú, corria livre, sem corredeiras e nem cataratas. Em suas margens habitavam índios caingangues, que acreditavam que o grande pajé M'Boy era o deus-serpente, filho de Tupão. Ignobi, cacique da tribo, tinha uma filha chamada de Naipí, que iria ser consagrada ao culto do deus M’Boy, divindade com a forma de grande serpente.
Tarobá, jovem guerreiro da tribo se enamora de Naipi e no dia da consagração da jovem, fogem para o rio que os chama: - "Tarobá, Naipí, vem comigo!" Ambos desceram o rio numa canoa. M’Boy, furioso com os fugitivos, na forma de uma grande serpente, penetrou na terra e retorceu-se, provocou desmoronamentos que foram caindo sobre o rio, formando os abismos das cataratas. Envolvidos pelas águas, caíram de grande altura. Tarobá transformou-se numa palmeira à beira do abismo, e Naipí, em uma pedra junto da grande cachoeira, constantemente açoitada pela força das águas. Vigiados por M’Boy, o deus-serpente, permanecem ali, Tarobá condenado a contemplar eternamente sua amada sem poder tocá-la".



As cataratas são formadas por 275 saltos, ao longo de 2,7 km de extensão no Iguaçú, que no local, faz a divisa entre Brasil e Argentina. Em algumas partes os saltos tem altura de oitenta a setenta metros.



Vale a pena conhecer.

http://www.diaadiaeducação.pr.gov.br/
http://www.h2foz.com.br/
http://www.wikpedia.com/
http://www.google.com/

SHIMIDT, Maria. Nova História Crítica. 1.ed. São Paulo: Nova Geração, 2005.
CARDOSO, J. A.; WESTPHALEN, C. M. Atlas Histórico do Paraná. Curitiba: Editora Livraria do Chaim, 1986.





Naufrágios & Comentários, o relato de Alvar Nuñez Cabeza de Vaca













Um aventureiro que combateu o genocídio dos índios






Precioso como fonte primária, este relato conta as aventuras e desventuras deste que foi um dos mais intrépidos e incomuns conquistadores da história colonial da América. Ao naufragar na Flórida em 1527, ele caminhou, descalço e nu, dezoito mil quilômetros até o México, onde chegou em 1537.
Em 1541, nomeado governador do Rio da Prata, Cabeza de Vaca aportou na ilha de Santa Catarina – onde viveu alguns meses – e dali partiu, também a pé, rumo a Assunção, Paraguai, onde chegou em 1542. Durante toda sua vida aventureira – na Flórida, no Texas, no México, no Brasil e no Paraguai –, lutou em favor dos povos indígenas. E pagou caro por isso: foi preso e enviado para o exílio. Em Naufrágios e comentários, Cabeza de Vaca narra suas fantásticas aventuras e desventuras bem como suas infrutíferas tentativas de impedir o genocídio perpetrado pelos brancos na América.





Jornada em busca da iluminação

Henry Miller­



Desde minha jornada através do Pesadelo Refri­­ge­­ra­do [1],tenho permanecido obcecado pela idéia de que a maior desgraça já imposta ao homem branco aconteceu neste continente. Mesmo quando criança, ficava impres­sionado com a história de que os índios haviam recebi­do os primeiros brancos como deuses. Mais tarde, já adulto, e particularmente como americano, não havia nada relacionado à desumani­dade do homem com seu semelhante que me entristecesse mais do que o vergo­nhoso registro de nossas relações com os índios. Passei então a considerar essa fase da nossa história de outra maneira, de uma maneira ainda mais triste. Vi a recusa do homem branco em representar o papel que era es­pe­­rado dele como uma oportunidade perdida – uma oportunidade de fato, e que talvez jamais lhe seja dada novamente.
Então surgiu a história de Cabeza de Vaca, dos mi­lagres que realizou, não apenas para si mesmo como pa­ra outros. Foi o primeiro momento glorioso que encon­trei na legenda sangrenta criada pelos conquistadores. Devo acrescentar que, na verdade, trata-se de um perío­do glorioso para a história do homem como um todo porque De Vaca, num determi­nado momento, deixa de ser um personagem histórico e se torna um símbolo. É esta visão da jornada que me faz preferir seu relato ao de outros. Qualquer análise mais profunda deste li­vro eleva seu drama a um plano que pode ser compara­do a outros eventos espirituais na cadeia dos esforços incessantes do homem em busca da autolibertação.
Para mim, a importância deste registro histórico não está no fato de que De Vaca e seus homens foram os primeiros europeus a atravessar o continente america­no, que abriram caminhos que outros exploradores se­guiram, ou que suas peregrinações provaram a existên­cia de uma massa de terra de proporções continentais ao norte da Nova Espanha, ou mesmo porque, com seus inflamados protestos, De Vaca fez terminar – ain­da que momentanea­mente – as bárbaras capturas de escravos naquela região; mas sim porque, em meio a suas provações, depois de anos de infrutíferas e amar­gas peregrina­ções, um homem que já havia sido um guerreiro e um conquis­ta­dor, fosse capaz de dizer: “En­sinarei o mundo a conquistar pela bondade, não pela matança”. Porque, no curso de suas atribulações e triunfos, Cabeza de Vaca veio finalmente a compreender que “um homem é tanto quanto ele é perante Deus, e não mais”, para usar as palavras de São Francisco. A jorna­da é o simples e comovente relato de um homem destituí­do de tudo e obrigado a agir em cada momento de sua vida sob a visão de Deus.
Tão terrível quanto estar separado de seus compa­nheiros, permanecer nu e faminto durante dias e sema­nas, às vezes meses sem fim, tão terrível e humilhante quanto ser feito escravo pelo povo que tinham vindo conquistar, o pior mesmo “era abandonar pouco a pou­co os pensamentos que vestem a alma de um europeu, e mais do que tudo a idéia de que o homem adquire força através do punhal e da adaga...” Quão eloqüentes são suas palavras quando, perto do final da jorna­da, ele encontra os outros membros da expedição, que tinham devastado a terra e escravizado os índios. “Ao en­ca­rar estes saquea­dores”, escreve, “fui compelido a en­carar o cavaleiro espanhol que eu mesmo tinha sido oi­to anos atrás.”
[2]
Este tema retorna outra vez: o homem que eu era contra o homem que sou agora. A conversão não foi ape­nas profunda e completa, mas viva em sua consciência, a um grau quase intolerável de se ler.
Há uma tendência por parte dos comentaristas de não acreditarem nos prováveis milagres operados por Álvar Núñez Cabeza de Vaca. Incapazes de negar a ve­racidade desses fatos, buscam explicá-los insinuando que, conscientemente ou não, os espanhóis apenas imitaram os xamãs indígenas. Louvam a modéstia dos espanhóis, que atribuíram seu sucesso ao auxílio direto do poder divino, mas ao mesmo tempo tentam desculpar os exa­geros e equívocos nascidos de uma imaginação inflama­da. Por essa atitude, parece-me que fogem por completo da questão dos milagres. Afinal, se De Vaca e seus homens são considerados suspeitos, que dizer então dos poderes efetivos dos xamãs?
O que me parece evidente é que os europeus civili­zados de quatro séculos atrás já haviam perdido algo que os índios ainda possuíam – e, em determinadas regiões, pos­suem ainda. Nenhum de nossos pajés moder­nos, apesar da “superioridade” de seu conhecimento e equipamento, é capaz de realizar curas milagrosas. Pa­rece ter sido esquecido que os espanhóis adquiriram seus poderes para curar apenas quando suas vidas es­tavam amea­çadas. Se tivessem sido hábeis e perspica­zes obser­vadores das práticas dos xamãs, teriam explo­rado esses poderes muito antes de atingirem tal extre­mo. Nada pode ser explicado ao, simplesmente, atribuir-­se seu sucesso par­cial ou provável a “um novo procedi­mento, desconhecido e incrível”. Estamos interessados é em saber como e por que esses métodos funcionavam e, se funcionavam, por que agora já não funcionam?
Acredito também, e por isso nunca cessarei de fa­lar deste pequeno livro, que a experiência desse espanhol solitário e deserdado no sertão da América anula toda a experiência democrática dos tempos modernos. Creio que, se vivesse hoje e lhe mostrassem as maravi­lhas e horrores do nosso tempo, ele voltaria instanta­neamente ao modo de vida simples e eficaz de quatro séculos atrás. Acredito que São Francisco faria o mes­mo, assim como Jesus, Buda e todos aqueles que viram a luz. Não consigo acreditar em nenhum momento que teriam alguma coisa a aprender com nosso modo de vida.
As propostas deste acordo de boca mundial eu co­nheço, mas suas atitudes falam distintamente. De Vaca aprendeu que se cura pela fé, que se conquista pela bondade. “É curioso”, escreve a Sua Majestade, “quan­do não se tem ninguém ou nada em que se confiar a não ser em si mesmo.” Sim, é realmente curioso. “Para se entender o que significa não ter nada, é preciso não ter nada.” Verdade. E, ainda assim, apenas um punha­do de homens em toda a história se atreveram a esta experiência.
Os homens que governam o mundo prometem isto e aquilo, liberdade, honra, segurança e – trabalho. Suas promessas são vazias e têm se provado vazias sempre. Mas os homens vazios gostam de promessas vazias. O homem que aconselha: “Olhe para você mesmo, o po­der está dentro de você!” é visto como um sonhador e um louco. Mas estes são os homens que fizeram mila­gres, que mudaram o mundo. Nenhum deles falou de posse, segurança, honra ou de liberdade. Falaram de Deus e de sua presença em todos os lugares, mesmo na alma de um descrente. Falaram dos ditames do cora­ção, de dedicação e devoção, em servir o próximo, de caridade, de amor, de tolerância e indulgência, de hu­mildade, de perdão. Cabeza de Vaca foi um dos poucos homens deste grande hemisfério que agiu sob estes prin­cípios de fé. A história simples de sua iluminação, sua irrevogável mudança de coração, apaga os rastros san­grentos de Cortez e Pizarro e de todos os conquistadores da terra desde tempos imemoriais. Nos leva a acreditar, desde o fundo de nossos corações, que um homem pode parar em seu caminho e, ao encarar a verdade, exempli­ficá-la através da ação. Nos leva a acreditar ainda mais que, na verdade, nada menos do que isto jamais satisfará o homem. E acredito ser este o significado da jor­nada que estamos todos fazendo.


[1] Depois de dez anos como um expatriado na Europa, Henry Miller retornou aos Estados Unidos em 1939. Decidiu então viajar de carro pelo país. O relato cáustico e inconformado dessa viagem foi publicado em 1945, sob o título de Air-Con­ditioned Nightmare, que é a maneira como Miller define seu país. (N.E.)
[2] Esta e todas as demais citações que Miller faz das palavras de Cabeza de Vaca não são textuais. Foram tiradas de uma novelização bastante precisa da trágica viagem do conquistador, feita em 1939 por Haniel Long e publicada sob o título de The Marvelous Adventure of Cabeza de Vaca (Frontier Press, 1941). Originalmente, o prefácio de Miller foi escrito pa­ra o livro de Long. (N.E.)


Publicado por: http://www.lpm-editores.com.br/ em 14/12/2009.